Férias de inverno, hospedados na casa dos primos nas montanhas. Na manhã da nossa partida, levanto-me primeiro, como costumo fazer; adoro este momento na casa silenciosa. Preparo um café e deixo a mente divagar, contemplando os picos através da janela da sala comum.
Só que aqui, tudo é branco, coberto por 20 cm de neve, e não apenas nos picos, mas em toda a volta e por todo o vale!
Ai, meu Deus, será que o trem regional que deveria nos levar de volta vai estar funcionando mesmo? Será que vamos conseguir descer na estação a tempo de pegá-lo? Será que o limpa-neve vai dar tempo de limpar os trilhos? E se o trem regional atrasar, vamos perder a conexão com o TGV. E amanhã eu trabalho; tenho uma transmissão de rádio ao vivo.
Lá vamos nós, meu cérebro está entrando em super estresse ; preciso acalmá-lo rapidamente ou o dia será péssimo.
Aqui estou eu, observando a neve que começa a cair novamente, me perguntando se o trem regional..., se o trem de alta velocidade..., se o limpa-neve...
Nesse momento, todos começaram a chegar na sala, exclamando: "Que lindo!" De fato, era lindo, mas eu teria preferido que não fosse no dia da nossa partida. Então minha esposa se intrometeu, também exclamando: "Você viu como é lindo?" Eu disse a ela que sim, que tinha visto, mas que não era conveniente para nós. A resposta dela: "Não se preocupe, aproveite um pouco, só vamos embora daqui a três horas."
Pfff… Acho que não devia insistir, senão todo mundo vai zoar de mim ("a psiquiatra estressada!").
Bem, eles têm razão, preocupar-se é inútil, não vai impedir a neve. Eu sei disso. Só preciso acreditar nisso agora. Aceitar uma ideia intelectualmente não é o mesmo que abraçá-la emocionalmente.
Mas eu sei como fazer. Então, eu faço.
Primeiro, respiro fundo e acalmo meu corpo; depois, lembro-me de que meus pensamentos – “vamos perder o trem” – são hipóteses, não certezas; finalmente, cultivo emoções agradáveis dentro de mim. Para este último ponto, é fácil: acomodo-me em uma poltrona perto da janela e admiro a vista.
É verdade, a neve caindo é magnífica. Os outros estão ao redor da mesa do café da manhã e se esqueceram de mim. Estou fazendo meu exercício de calma mental no meu canto, em paz, com atenção plena. Depois de meia hora, lá está, sinto que está funcionando. Respiro calmamente, digo a mim mesma que veremos, que aconteça o que acontecer, não é um grande problema. Desta vez, acredito; não como antes.
Meu cérebro é assim; quase nunca me oferece alegria e leveza sem esforço. Preciso forçá-lo. Mas eu o perdoo: ele também me oferece muitas outras coisas agradáveis.
Como terminou?
A neve parou, nossos trens chegaram no horário e, naquela mesma noite, estávamos em Paris. Lá, enquanto adormecia, refleti sobre a beleza da neve caindo suavemente…
Ilustração: "Nevou demais em casa, vamos passar um tempo no calor e no sol com nossos amigos..." (Guerreiros vikings infelizes).
PS: Esta coluna foi originalmente publicada na revista Psychologies em fevereiro de 2025.
